Publicado por: Cláudia | dezembro 2, 2016

Rio, favelas e lamentos

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Nos últimos dias estive no Rio de Janeiro por ocasião do II Urbfavelas (II Seminário Nacional sobre Urbanização de Favelas). Esta foi a segunda vez que estive na cidade. Na primeira, há exatos três anos, fui como turista. Conhecer a cidade maravilhosa foi como ter a alma cantando em meio à bossa nova de Jobim. Como não se apaixonar pelo Rio? Por sua paisagem, arquitetura, e pela simpatia de seu povo. Desta vez a experiência foi mais intensa, talvez pela relação com tudo o que foi debatido durante os quatro dias de seminário, talvez pela situação crítica que vive o estado do Rio de Janeiro, ou até mesmo pelos fatos ocorridos durante minha estada no local.

Vou me permitir fazer um relato muito mais pessoal do que técnico sobre o seminário e os acontecimentos que o acompanharam. Primeiramente, o seminário representou a oportunidade de ouvir e debater com pesquisadores e profissionais de diversas formações e de todo o país, as limitações e perspectivas das intervenções em favelas. Além disso, me permitiu compartilhar um pouco de minha pesquisa na área, levantando importantes contribuições para sua continuidade.

Diferente de sua edição anterior, que aconteceu em 2014, na UFABC, em São Bernardo do Campo, o II Urbfavelas contou com a participação de novos agentes, representados pelos movimentos sociais e moradores de favelas, muitas vezes também acadêmicos. As falas deste público trouxeram um contraponto à visão dos pesquisadores, nos levando a repensar conceitos e estratégias de intervenção.

Foi impossível não notar uma postura defensiva nas falas dos moradores de favela. Parece que há uma constante tentativa de mostrar a favela, não como problema, mas como um modo de vida característico, reforçando sua permanência e questionando a necessidade das intervenções. Por outro lado, também estava presente a busca por melhores condições de vida e acesso aos serviços disponibilizados no “asfalto”, historicamente negados a esta parcela da cidade.

A postura dos moradores de favela parece refletir a posição de uma população constantemente ameaçada pelos processos de remoções arbitrárias, talvez muito mais presentes no Rio, palco principal dos megaeventos, do que em qualquer outra cidade brasileira. Como colocado por Raquel Rolnik, na mesa de abertura, a favela deixou de ser o espaço de moradia do exército de reserva da produção industrial, para ser reserva de terras para expansão do capital. Neste sentido, as favelas cariocas, principalmente aquelas localizadas em áreas valorizadas da cidade, emergem como alvo central do mercado imobiliário.

Dentre as atividades culturais que acompanharam o seminário, a mostra de vídeos foi uma agradável surpresa. Um dos títulos apresentados, 5x Favela – Agora por nós mesmos (2010), longa composto por 5 histórias retratando a vida nas favelas e dirigido por moradores do local, me emocionou. Ao contrário dos filmes mainstream sobre favelas, onde o tema da violência se sobressai, 5x Favela retrata a favela com delicadeza e humor, algo que só poderia ser construído de dentro para fora. Conforme relato de um dos cineastas, Luciano Vidigal, presente no debate, a intenção foi mostrar a favela de forma que os moradores pudessem se identificar. A configuração física da favela e seus entraves também se expressa no filme, através do congestionamento domiciliar, da dificuldade de acesso nas vielas e escadarias e nas barreiras entre um e outro assentamento.

Ao fim do último dia de mesas e sessões temáticas, ao voltar para o hotel, resolvi conhecer a catedral de São Sebastião, na região da Lapa. Ao encontrá-la fechada, decidi visitar os arcos. Caminhei brevemente pela praça e, no caminho de volta, fui abordada por dois rapazes gritando:

– Passa a bolsa moça. Passa a bolsa!

Não consegui identificar se eles estavam armados ou não, mas, na dúvida, achei melhor não arriscar e pedi somente que deixassem os documentos. Um dos rapazes respondeu à minha solicitação dizendo: “Vou jogar ali atrás”, antes de sair correndo, retornando à praça. Voltei ao local na tentativa de resgatar os documentos, mas, talvez pela falta de entendimento de onde seria “ali atrás”, não consegui encontrá-los.

A noite seguiu com uma visita à 5ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro. Enquanto aguardava para fazer o Boletim de Ocorrência, observei os dramas que ali se desdobravam: a senhora que tentava conseguir com um agiota o dinheiro para pagamento da fiança do marido; a moça presa por tráfico de drogas junto ao filho menor de idade; o menino preso, não sei por que motivo, que alegava ter sofrido violência por parte dos policiais. Fui muito bem atendida pela polícia, que costuma me passar mais a sensação de medo do que de segurança. Ao final do registro da ocorrência, o policial pediu que eu verificasse as informações anotadas. Um item me chamou a atenção, minha cor foi declarada como branca. Disse ao policial que me considerava parda e não branca e ele então tentou justificar que o fator preponderante não era exatamente a cor da pele. Percebi, então, que os traços herdados da parte europeia da família e os cabelos alisados me colocavam na posição de branca, e talvez fosse isso o que realmente me diferenciava das outras pessoas que estavam ali, “quase todos pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres[1]”.

Apesar da tristeza com o incidente, me senti amparada de várias formas: pela família, através do querido marido que me assessorou de longe; por amigos que também estavam no Rio por ocasião do seminário; pelo Estado, por meio da polícia, e até mesmo pelo grande capital, no papel das instituições bancárias, que me informaram todos os direitos e garantias vinculados aos serviços por eles prestados – alguns que eu desconhecia – privilégio da pequena parcela da população que tem algum dinheiro para guardar. Me perguntei então: Quem ampara a população pobre? Quem ampara os moradores de favela? Quem ampara os rapazes que me assaltaram? E, no final da noite, já não estava mais claro quem era, de fato, a vítima.

No dia seguinte, último dia do seminário, ocorreram as visitas de campo. O roteiro selecionado foi o do Subúrbio: Alemão e Manguinhos. A visita ao Alemão foi cancelada, já nos primeiros dias do evento, devido aos tiroteios ocorridos em diversas favelas cariocas no final de semana anterior. A proposta era visitar, então, somente Manguinhos. Porém, na manhã da visita, ocorreu um assassinato no local e o roteiro ficou restrito somente às áreas de provisão do PAC, parte do complexo, além da observação dos assentamentos pelo campus da Fiocruz.

Nossa frustração com a impossibilidade de visitar as áreas se completou ao conhecermos os equipamentos implantados pelo PAC. As intervenções do PAC em Manguinhos, sem entrar na discussão da qualidade dos projetos, apresentam todos os elementos que os arquitetos e urbanistas sempre sonharam para um projeto de urbanização integrada de favelas, no entanto, quase nada funciona. A escola não atende à capacidade de alunos prevista e está em processo de degradação; a piscina não pode ser usada por falta de manutenção; o cinema 3D não foi apropriado pela população; o escritório de assessoria jurídica nunca teve profissionais que se dispusessem a trabalhar no local; o centro de juventude foi fechado e a biblioteca parque está sob ameaça de fechamento; as vias e espaços livres do entorno são utilizadas por usuários de drogas, o que inibe o uso pelos moradores dos conjuntos; os quiosques destinados ao comércio foram fechados, alugados ou adaptados para uso como moradia e grande parte da demanda original já não habita mais as unidades produzidas pelo programa. O tráfico de drogas, muito presente no complexo, parece ter limitado a participação da população nas decisões do projeto, que talvez pudesse ser mais adequado à realidade da área se tivesse sido amplamente discutido. Quanto aos equipamentos – cinema, biblioteca, centro da juventude e outros – apesar de apresentam propostas interessantes, requerem gestão e recursos contínuos, demanda que o Rio de Janeiro não parece em condições de atender. Em resumo, um cenário bem triste para nós, agentes que lidam com as favelas, que temos o PAC-UAP (e não sabemos por quanto tempo) como principal instrumento para a urbanização destes assentamentos.

Com o fim do seminário, aproveitei meu último dia no Rio para visitar o Porto Maravilha. A área renovada e com a presença dos lindos projetos de Calatrava e Bernardes e Jacobsen perdeu um pouco do seu brilho após a experiência dos dias anteriores. Afinal, a quem se destina a renovação urbana do Rio de Janeiro? Parece que a lógica que constrói a cidade maravilhosa dos megaeventos é a mesma que promove remoções arbitrárias e contribui para a violência nas favelas, vista a experiência falida das UPPs. Nada que eu já não tivesse tomado conhecimento antes, mas que, de certa forma, era mais cômodo ignorar.

Na fila para o Museu do Amanhã, me atentei à conversa da família a minha frente, que debatia sobre o melhor museu a visitar, MAR (Museu de Arte do Rio) ou Museu do Amanhã. O vendedor de sorvetes que passava ao lado interveio na conversa:

– Esse daqui é do futuro, das coisas que ainda vão acontecer. O outro é muito mais legal!

Pois é! O passado, principalmente o retratado pela arte, nos traz algum alento, enquanto o futuro, por ser desconhecido, é sempre assustador. E num período de crises, atentados à democracia, desigualdades e injustiças sociais, que futuro se reserva para o Rio e para as favelas?

Embora as perspectivas sejam desanimadoras, faço minhas as palavras de David Harvey, ao falar sobre a conjuntura atual[2], e prefiro (e preciso) acreditar que ainda “podemos construir um mundo muito, muito melhor.”

 

[1] Haiti – Caetano Veloso

[2] http://www.cartacapital.com.br/internacional/201cnao-acredito-que-temer-tera-forca-politica-por-muito-tempo201d

Publicado por: Cláudia | fevereiro 21, 2012

Projeto para a sede do ISSEM

Este projeto foi desenvolvido no final de 2011 e obteve Menção Honrosa no concurso de projetos para a sede do ISSEM, Instituto de Seguridade dos Servidores Municipais de Jaraguá do Sul.

A finalidade do concurso era desenvolver um projeto para a sede do ISSEM, que ocupa atualmente um espaço alugado, buscando atender com mais qualidade seu grupo de beneficiários e considerando uma perspectiva de ampliação da capacidade de atendimento por 10 anos. A sede abrigará espaços administrativos, de treinamento e de atendimento médico aos segurados.

O projeto desenvolvido busca destacar o valor da instituição através da arquitetura, com a criação de um edifício único que se configuraria como um marco local. Seu foco é um grande triângulo apoiado sobre um bloco ortogonal. Com composição predominantemente horizontal, o edifício se acomoda no terreno, acompanhando sua topografia natural e dialogando, desta forma, com a paisagem do entorno. Os diversos panos de vidro propostos fundem interior e exterior, levando para dentro do edifício os aspectos naturais do local. Ao mesmo tempo em que apresenta este diálogo com a paisagem, o objeto busca espelhar o caráter dinâmico e inovador da instituição através de formas e materiais contemporâneos.

Além disso, o projeto considera critérios de sustentabilidade, através da adoção de elementos de controle solar, coberturas verdes, reaproveitamento de água, e controle de resíduos de construção.

Os demais projetos vencedores podem ser vistos na página do concurso: http://issem1.tempsite.ws/

Faço, mais uma vez, um agradecimento aos meus colaboradores Etson Delegá, responsável pelo tratamento de imagens e diagramação, Eduardo Leandro e Mônica Yoshinari, que auxiliaram no processo de impressão e montagem das pranchas.

Publicado por: Cláudia | outubro 29, 2009

The Fun Theory

The fun Theory é uma iniciativa muito interessante da filial sueca da Wolkswagen que realiza pequenas intervenções nos espaços públicos, mostrando que equipamentos urbanos divertidos podem gerar uma mudança positiva no comportamento de seus usuários.

As propostas incluem uma escada cujos degraus foram transformados em teclas de piano, a lixeira mais profunda do mundo e uma máquina de recicláveis que se assemelha a fliperamas.

Além disso a campanha prevê uma premiação para novas invenções que contribuam para tornar nosso dia-a-dia mais divertido.

Para saber mais: http://www.thefuntheory.com/

Publicado por: Cláudia | setembro 21, 2009

A Casa Espontânea

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Este é o título do trabalho que nos rendeu uma menção honrosa no concurso Prefab 20*20 – Visions for 400 Square Foot Homes.

O objetivo do concurso, organizado pela Architecture For Humanity Vancouver, o instituto de arquitetura da Universidade British Columbia, a Interior Design Show West 2009, e patrocinado pela revista Azure, era desenvolver uma moradia pré-fabricada de até 37,50 m², passível de ser construída em diversos locais do mundo, levando em conta aspectos construtivos, sociais e ambientais.

O projeto da “Casa espontânea” busca promover comunidades adensadas em grandes centros urbanos, através de módulos que podem ser agrupados, compondo estruturas variadas. Os módulos possuem uma base padrão com aberturas denominadas “Free Panels”, que podem ser customizáveis de acordo com a personalidade dos habitantes, cultura e clima do local onde serão inseridas, tornando o projeto único sempre.

O espaço da unidade se divide em três módulos. O primeiro e maior módulo corresponde ao espaço de vivência (cozinha, quarto, sala), o segundo abriga espaços para banho, concentrando a tubulação hidráulica da unidade, enquanto o último pode ser utilizado como local de trabalho.

A estrutura foi desenvolvida em módulos de 90 x 90 cm, em elementos metálicos, considerando a facilidade de transporte para diversos sítios do mundo.

Os projetos vencedores do concurso podem ser vistos no site: http://www.prefab2020.wordpress.com

Visualização da Prancha

Visualização da Prancha

Autoras do projeto: Cláudia Bastos Coelho e Mariana Matayoshi

Aproveito para fazer um agradecimento àqueles que acreditaram em nosso projeto e forneceram sua valiosa contribuição: Claudia Taminato (auxiliar na concepção), Etson Delegá (finalização de imagens e consultoria de diagramação), Luana Sato (consultoria técnica de engenharia estrutural) e Marco Antônio dos Anjos Corvo (tradução e interpretação do texto).

Publicado por: Cláudia | junho 22, 2009

Site do CAU

As entidades nacionais de Arquitetos e Urbanistas colocaram no ar, em caráter experimental, o site do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo).

O site traz informações sobre a tramitação do projeto de lei 4413/2008, que regulamenta o exercício da profissão e cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, além de manifestos e depoimentos de entidades vinculadas ao setor.

O Conselho próprio é sonho dos arquitetos brasileiros desde a década de 50. Hoje os profissionais participam do sistema CONFEA/CREA, que engloba mais de 200 profissões, dentre engenheiros, engenheiros agrônomos, geólogos, geógrafos, metereologistas, técnicos industriais e técnicos agrícolas, que deliberam sobre temas relativos à área profissional dos arquitetos e urbanistas. O Brasil é também o único país da América Latina que não possui um conselho exclusivo para arquitetos e urbanistas.

Para acompanhar a proposta acesse:

http://www.cau.org.br/

Publicado por: Cláudia | junho 7, 2009

A arquitetura brasileira no cinema e na televisão

No final de minha infância, lembro de ter me encantado com uma casa que era cenário do filme Dormindo com o inimigo. Anos depois, descobri que se tratava de uma obra do arquiteto americano Richard Meier.

Ainda me surpreendo ao reconhecer a arquitetura no cinema e na televisão, o que me faz refletir sobre como a arquitetura brasileira é retratada nas telas, já que o cinema nacional produz muitos títulos que tratam da temática da desigualdade social, tendo como grande cenário a favela. Pensando nisso, resgatei na memória algumas cenas  que mostram obras emblemáticas de nossa arquitetura. Coincidentemente a maioria delas está em filmes de grandes diretores.

Talvez a mais poética destas cenas seja a que retrata o conjunto do Pedregulho (Rio de Janeiro, 1952), de Affonso Eduardo Reidy, no filme Central do Brasil de Walter Salles. Trata-se de uma das principais obras do arquiteto, um projeto para habitação popular que englobava também espaços comerciais, de educação e lazer. O filme mostra um Pedregulho decadente, mesmo assim é possível ver beleza entre os enormes pilotis e os corredores curvilíneos protegidos por elementos vazados.

Conjunto Habitacional Pedregulho

Conjunto Habitacional Pedregulho

No filme Domésticas, Fernando Meirelles traz às telas um grande edifício da arquitetura paulista, o Louveira, de João Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi. Muitas cenas do filme se passam na área de serviço do prédio localizado no Higienópolis. Certa vez, ao assistir o filme junto a uma amiga assistente social, mencionei que se tratava do prédio de um grande arquiteto. Ela afirmou não ver nada de especial na obra, criticando inclusive o espaço reduzido das dependências destinadas às empregadas. Eu, particularmente acho o prédio muito bonito. Bem, uma minissérie da rede Globo, nos permitiu conhecer o Louveira também pela porta da frente, o edifício era endereço da personagem vivida por Débora Bloch em Queridos Amigos. Esta minissérie tem como cenário outra grande obra. A casa do personagem Léo (Dan Stulbach) é a casa Edmundo Canavelas em Petrópolis, projeto de Niemeyer com paisagismo de Burle Marx.

A obra de Niemeyer pode ser vista nos cinemas no último filme de Glauber Rocha, A idade da terra (1980). O filme mostra o Teatro Nacional em construção e associa o edifício a uma pirâmide. Realmente, o projeto de Niemeyer aliado aos blocos do artista plástico Athos Bulcão trazem singularidade à obra, remetendo às grandes construções das civilizações pré-colombianas.

Teatro Nacional
Teatro Nacional

Outra obra de Niemeyer, o edifício Copan, esteve bastante presente na recente série Alice da HBO. A série teve a cidade de São Paulo quase como uma protagonista, nos levando a alguns espaços bastante representativos da metrópole como o parque do Ibirapuera, a nova ponte das Águas Espraiadas, o viaduto do Chá e o bairro da Liberdade. Era na galeria do Copan que a tia de Alice, Luli, possuía um brechó. No último capítulo descobrimos que o edifício abrigava também o apartamento de Nicolas, o amigo/namorado de Alice. Bem, mas as cenas de reconciliação entre os dois personagens foram tão quentes que ninguém deve ter prestado muita atenção no apartamento.

Outro dia estava “zapeando” com o controle da tv e dou de cara com um clipe de uma Wanessa e Ja Rule na VH1. Demorei para descobrir que se tratava da Wanessa Camargo. De qualquer forma, lá estava ele de novo, o Copan, agora visto de um ângulo pouco conhecido, os fundos, onde não existem os brises de concreto. Vale a pena dar uma olhada.

O edifício Copan também é destino comum das agências de publicidade. Aliás, tenho presenciado muitas propagandas que retratam o centro de São Paulo. Os anunciantes vão desde achocolatado na Praça Roosevelt ao carro do Jack Bauer junto à marquise de Paulo Mendes da Rocha na praça do Patriaca.

Para conhecer mais sobre as obras citadas:

Além de recomendar todos os filmes e séries aqui citados, há alguns documentários recentes que tratam da obra de Reidy e Niemeyer:

Pedregulho – O sonho é possível (2008) de Ivana Mendes

Reidy, a Construção da Utopia (2008) de Maria Magalhães

Oscar Niemeyer: A Vida é um Sopro (2007) de Fabiano Maciel

Publicado por: Cláudia | maio 25, 2009

A mais esperada estréia dos últimos anos: o Cine Marabá

No próximo sábado o Cine Marabá, localizado na avenida Ipiranga, abre suas novas salas ao público.

O cinema, símbolo da cinelândia paulistana, foi inaugurado em 1944 e entrou em decadência na década de oitenta. O espaço foi comprado pelo grupo PlayArt e está fechado desde 2007. Por ser um edifício tombado pelo Departamento de Patrimônio Histórico, a reforma teve que atender a vários requisitos visando manter as características originais da obra, muitas delas reconstituídas por uma equipe de restauro.

O Marabá, que contava com uma grande sala de 1655 lugares, se transformou em um multiplex com cinco salas, adaptando-se aos novos tempos. Apesar de manterem elementos da arquitetura original, as salas não deixarão nada a desejar em relação aos mais novos cinemas de São Paulo, e devem apresentar títulos do circuito comercial, o que já podemos confirmar com os filmes de estréia: Jonas Brothers: The 3d Concert Experience e Uma noite no Museu 2. De qualquer forma, rever o Marabá vale o ingresso.

Para não perder a estréia:

Onde: Av. Ipiranga, n.757 (próximo ao metrô República)

Quando: dia 30 de maio

OBS: A PlayArt ainda não disponibilizou os horários das salas e valores das sessões

Publicado por: Cláudia | maio 16, 2009

Mais do Mesmo: Minha Casa, Minha Vida

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Nesta segunda-feira cerca de 450 integrantes do Movimento Nacional Pró-moradia protestaram em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, onde o presidente despacha provisoriamente. O objetivo do protesto, de forma geral, era garantir que o programa “Minha Casa, Minha Vida” venha a favorecer a população entre as faixas de zero a três salários mínimos.

Realmente, a viabilização do atendimento às populações mais carentes ainda desperta muitas incertezas. Participei na semana passada de um debate no instituto Polis, com a presença de Raquel Rolnik, professora da FAU/USP e relatora especial da ONU, Evaniza Rodrigues, liderança da União dos Movimentos de Moradia e Patrick Araújo, da secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Osasco, que tratava justamente do programa “Minha Casa, Minha Vida”, e levantou algumas questões importantes sobre o tema.

O programa “Minha Casa, Minha Vida” surgiu como uma proposta de enfrentamento à crise econômica. Com a globalização do mercado, a produção imobiliária passou a ter um importante papel na captação do excedente financeiro global. O colapso do modelo financeiro atinge o Brasil no momento em que as grandes construtoras estavam prontas para o mercado. Desta forma, o pacote anticrise veio garantir a demanda das construtoras através do subsídio à habitação, gerando também empregos na construção civil. A medida não é novidade e já teve precursores no Chile e México, com resultados questionáveis do ponto de vista urbanístico.

O primeiro problema começa no público alvo das construtoras, que está acima da faixa de 4 salários mínimos, não havendo interesse por parte delas de produzir habitação para a baixa renda, justamente onde se concentra a maior demanda. Assim, para garantir o atendimento às famílias nas faixas de zero a três salários mínimos, o governo propôs a produção dos empreendimentos pelos municípios.

O lançamento do “Minha Casa, Minha Vida vem trazendo diversos problemas aos municípios que, despreparados, tiveram que se organizar às pressas para atender às inúmeras solicitações de informação e inscrição no programa, sem ter ainda terrenos e projetos definidos para o atendimento. A situação de agrava nas áreas metropolitanas onde a demanda é maior, com terrenos escassos e caros. Há ainda a dificuldade de se compatibiliazar os novos empreendimentos aos planos diretores e às políticas habitacionais locais, além da falta de recursos municipais para contrapartida aos recursos do governo federal.

Não podemos negar que o programa representa um grande avanço para o setor habitacional. A disponibilidade de 34 bilhões de reais para a construção de novas unidades é um fato inédito no país, e representa o reconhecimento do direito à moradia, já que viabiliza recursos subsidiados podendo atingir a classe mais carente. A habitação também passa a ter um papel de destaque, sendo vista como solução para a crise.

Por outro lado, o programa desconsidera o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e a política habitacional existente. Os recursos viabilizados não irão para o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social. Este fundo representa a conquista de anos de luta dos movimentos de moradia, sendo fruto do primeiro projeto de iniciativa popular apresentado ao Congresso Nacional, em 1991, e aprovado em 2004.

Além disso, considera-se uma única maneira de produzir e compreender a habitação: a aquisição da casa própria com a construção de novas unidades.  E o mais preocupante, a moradia é vista de maneira quantitativa e como unidade isolada, não inserida no contexto urbano. A moradia digna deve ter como pressuposto o acesso à cidade, ou seja, permitir que os moradores tenham facilidade aos serviços de transporte, educação, lazer e saúde, o que não é viabilizado nas áreas comumente destinadas à baixa renda, os terrenos mais baratos, periféricos e desprovidos de infra-estrutura urbana.

Estes fatores fizeram com que Evaniza Rodrigues definisse sabiamente o programa como “mais do mesmo”. Hoje possuímos instrumentos que nos permitem implantar cidades mais dignas, mas não há incentivo para colocá-los em prática. Talvez, o aporte de recursos para habitação através do programa “Minha Casa, Minha Vida”  pudesse ser o ponto de partida para este processo.

A pressão de movimentos e organizações ligados à habitação já trouxe alguns avanços ao programa, como a viabilização de recursos para a regularização fundiária e a possível  aprovação de investimentos  na requalificação de imóveis em áreas centrais. Porém ainda há muito a melhorar. Acredito que um dos pontos falhos é a questão da assessoria técnica. O programa não prevê recurso para o trabalho social e não incentiva a variedade arquitetônica, já que oferece projetos padrões que podem ser implantados em qualquer município do país, enquanto poderia ser a oportunidade para impulsionar o trabalho de profissionais de arquitetura e engenharia, e melhorar a qualidade das moradias de baixa renda. Outro ponto fundamental é a integração com o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social e a revisão do papel dos municípios e movimentos sociais no programa.

Certamente, ainda há muito que se discutir sobre o “Minha Casa, Minha Vida”. A proposta foi elaborada às pressas como forma de enfrentamento à crise, deixando muitas arestas a serem aparadas.  Acredito que a solução está em aprimorar o programa com a participação da sociedade, através de debates e propostas, garantindo que os recursos sejam aplicados na construção de cidades mais justas e mais dignas.

Publicado por: Cláudia | maio 4, 2009

Virada Cultural


Apresentação da Cie Beau Geste

Apresentação da Cie Beau Geste

Este ano tive a oportunidade de participar pela primeira vez de uma Virada Cultural. Ainda que tenha acompanhado as atividades por um curto período, entre a noite de sábado e a madrugada do domingo, pude sentir de perto o espírito da festa.

A programação contou com diversas apresentações de grupos franceses em comemoração ao ano da França no Brasil. Acompanhei a Cie Beau Geste com o seu “Transports Exceptionnels”, uma coreografia entre um bailarino e uma retroescavadeira. A apresentação oscila entre o suave e o brutal, com a pá da retroescavadeira ora protegendo o bailarino, ora atacando. O resultado é uma coreografia fascinante.

Fascinante também foi a performance de Les Souffleurs, “a confissão dos pássaros viajantes”, que transformou a catedral da Sé numa grande instalação. A cena era composta por pássaros sobre plataformas que sussurravam poesias ao público através de tubos de neon azul. Tudo isso sob a penumbra da nave central, emoldurada por uma suave luz vinda dos vitrais. Lindo! Só poderia ser melhor se os pássaros não fossem tão seletivos. Como o público era grande, foi difícil permitir que todos ouvissem as poesias.

Pude ver ainda, embora não tenha ouvido o som que a anunciou o início da Virada, as sirenes do grupo Mécanique Vivante, na praça do Patriarca, que deram um ar festivo à marquise de Paulo Mendes da Rocha. Logo ao lado, o edifício Matazazzo, sede da prefeitura, foi tomado por projeções das mais diversas, feitas pelo Laborg, que surpreenderam por sua precisão.

O vale do Anhangabaú foi certamente um dos pontos altos da festa, abrigando o palco da dança e algumas performances cênicas, e funcionando como um grande eixo integrando as atividades. Sobre o viaduto do Chá, que mais do nunca exerceu seu papel de ligação entre o centro velho e o novo, artistas circenses exibiam números impressionantes pendurados por cabos que ligavam o edifício Matarazzo ao shopping Light.

Acompanhei também um pouquinho do samba rock no palco da avenida Rio Branco e dos espetáculos de dança. Mas confesso que ao ver as fotos dos eventos, fiquei um pouco frustrada por ter perdido Jon Lord e a Orquestra Sinfônica Municipal e a instalação de fogo da Cie Carabosse no parque da Luz. Mas fica uma dica, ao se programar para a Virada é preciso estar inteirado das atrações e elaborar um roteiro prévio para aproveitar ao máximo, já que não é possível ver tudo.

Como pontos baixos, que podem ser melhorados no próximo ano, citaria os problemas com a limpeza, em grande parte gerados pela falta de conscientização do público, e  com o transporte, sobretudo com a concentração de usuários na estação Anhangabaú do metrô, o que certamente será sanado na próxima edição com a finalização das obras na estação República.

O centro vivo

Projeções no edifício Matarazzo

Projeções no edifício Matarazzo

Não posso deixar de dizer que foi emocionante ver toda essa movimentação no centro de São Paulo durante a noite. Meus olhos brilharam ao passar pela avenida Ipiranga e encontrar um hotel Marabá iluminado e em funcionamento, ver uma galeria Olido a pleno vapor e o vale do Anhangabaú sendo utilizado como espaço de convívio.

Pensando na revitalização do centro, é importante citar o projeto Momento Monumento, que também se inclui na lista das atividades do ano de França no Brasil. O objetivo é transformar um edifício vazio no largo do Paissandu num laboratório cultural, através da construção coletiva. As atividades iniciaram na Virada Cultural com a apresentação dos “vagalumes” e sua “Roda eletrônica”, aliás com uma ótima seleção musical. A idéia é que, ao final do ano, o edifício seja desativado ou, o que torcemos para que aconteça, seja de alguma forma absorvido pela cidade.

A meu ver, a Virada Cultural enfatiza a necessidade de se criar atividades noturnas para a região central, não apenas por dois dias. Trazer de volta a habitação, a cultura, o comércio e instituições que garantam o uso noturno da região, só irão contribuir para um Centro mais diverso, bonito e seguro, como deveria ser o destino de qualquer centro metropolitano.

Publicado por: Cláudia | maio 2, 2009

Sejam bem vindos!

Fábula de um arquiteto

João Cabral de Melo Neto

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero, com confortos de matriz, outra vez feto.

Olá!

Meu nome é Cláudia.  Estou criando este blog como um espaço alternativo para a discussão das cidades, sua arquitetura e seus habitantes.

O blog ainda não tem uma linha definida, ele é aberto, assim como a arquitetura vista por João Cabral de Melo Neto.  Um espaço para discutir tudo que acontece de interessante em nossas cidades.

Sejam bem vindos!

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